E que história foi aquela da produtora de Crash, Cathy Schulman, agradecendo “meu marido e minha mulher” quando subiu ao palco do Kodak para aceitar a estatueta de melhor filme? Um momento Brokeback? Consta até que o marido de Cathy, na platéia, coçou a cabeça, intrigado: “mas quem é a mulher dela?”
“Eu disse isso? Eu disse isso mesmo? Meu Deus!”, Cathy enrubesceu nos bastidores. “Isso prova o quanto eu estava nervosa. Eu queria agradecer meu marido e minha filha!” 
Cathy Schulman, com Paul Haggis, no palco do Oscar: momento Brokeback?
Foto: Oscar.org
No departamento das vitórias certas, tudo era mais tranquilo. Ou quase. Philip Seymour Hoffman tinha prometido aos amigos latir diante das câmeras se ganhasse o Oscar, mas na hora h não conseguiu. "Não é que eu não consegui, deu um branco completo na minha cabeça", Philip confessou nos bastidores. " A verdade é que perdi o controle das minhas entranhas naquele momento. Completamente."
Philip Seymour Hoffman, seu Oscar e Jon Stewart, chegam ao Governors´ Ball: perdeu o controle
Foto: Oscar.org
O vestido de Reese Whiterspoon era dela mesmo, viu? “É um Christian Dior vintage de 1955, achei numa loja de Paris e comprei. É meu, e tenho muito orgulho disso.”
No meio do papo com a mídia, Reese deu pulos de alegria: “Acabei de saber que o filme do meu marido (Ryan Philippe, o policial novato de Crash) ganhou o grande prêmio!” Depois, retomou a conversa, lembrando que sua mãe e sua avó foram a sgrande sinspirações para compor o perosnagem de June Carter Cash, “elas me mostraram quais as verdadeiras qualidades de uma mulher, o quanto de coragem e resistência uma mulher tem”.
O que passou na cabeça de Reese quando ouviu seu nome sendo lido no palco? “Oh não, não, não, não!”
Reese Whiterspoon, seu Oscar e seu Ryan Philippe chegam ao Governors´Ball..
..e a Melhor Atriz tenta jantar: "não, não, não, não!"
Fotos: Oscar.org
O dia seguinte: a sensação que prevalece é que lesaram O Segredo de Brokeback Mountain. Era para ter vencido, e venceu, a nível de Oscar, apenas parcialmente: os prêmios que realmente definem o vitorioso de um ano foram para Crash-No Limite.
Há muitas teorias e sentimentos voando pela indústria e pela mídia. Duas que respeito são do Carpetbagger do New York Times e do sempre sábio Kenneth Turan do Los Angeles Times. Turan coloca a coisa em termos muito simples: há filmes que vencem por perder (como Touro Indomável, por exemplo, para citar só um. Na área do filme estrangeiro, ó céus, Central do Brasil e Cidade de Deus).
Foi o que aconteceu com o filme de Ang Lee. Sua vitória mais profunda é o que já aconteceu- a travessia para corações e mentes do público do mundo inteiro, com toda a sua carga de inquietação, tristeza, desconforto, ameaça, encantamento. Isto é o que faz um grande filme: aquele que é tão poderoso que você não para de falar nele, contra ou a favor, muitas horas e muitos dias depois de tê-lo visto. Ou aquele que, como você leu aqui, dá medo de ser visto. Medo de ser visto: um filme sem armas, sem sangue, sem tortura, sem monstros, sem violência, sem sadismo. Um filme sobre amor, profunda e completamente sobre amor, sobre o que nos torna humanos e, portanto, divinos, em toda a nossa complexidade.
Mas mexer com o vespeiro da sexualidade humana é mais complicado, ameaçador e poderoso do que mexer com qualquer outro de nossos temas sensíveis.Como Turan coloca tão bem, na intimidade do voto anônimo o establishment da Academia pediu arrego. Já lhe pareceu bastante que Brokeback tenha chegado onde chegou. Mais seria...seria... seria... perigoso? Repugnante? Ameaçador? Queria ser uma mosca para olhar esse pessoal hoje, diante do espelho.
Não sou da turma que odeia Crash. É um bom filme, muito bem construído e urdido, com interpretações magníficas, uma bela trilha e minha canção favorita, além de ser a cara da minha cidade querida, Los Angeles. Mas não é o melhor filme do ano. Suas pretensões – nobres, sem dúvida – são maiores que sua capacidade de expressá-las fluentemente e, freqüentemente, isso se traduz numa linguagem estenográfica que flerta com o clichê.
Mas é um filme "seguro". Numa safra recheada de minas subterrâneas de temas “perigosos”, Crash expressa aquilo que é palatável para o veio principal da Academia.
É uma vitória. Mas não é A Vitória. Essa, tempo e história dirão.
Boa tarde, boa noite. E boa sorte.
Foto: Oscar.org
Como Crash-No Limite ganhou? Esse é o tema do dia na indústria. A conexão Cientologia aparece com destaque para explicar a rápida ascensão de Paul Haggis de obscuro roteirista de TV a autor dos dois últimos vencedores do Oscar. Fato que, aliás, ele lembrou com certa veemência a um repórter estrangeiro que, procurando pela melhor palavra em inglês para formular sua questão nos bastidores do Oscar, ousou perguntar a Haggis como ele se sentia com sua “súbita” glória. “Súbita como? Eu sou o autor dos dois últimos ganhadores do Oscar!”
Boa munição para a Turma que Adora Odiar Crash.
Paul Haggis, triunfante:"súbita como?"
Uma outra teoria interessante garante que uma bem urdida campanha boca-a-boca mobilizou os atores dentro da Academia para pedir os votos dos colegas para Crash. O Departamento de Atores é o mais numeroso dentro da Academia e pode, sim, fazer ou não fazer o sucesso de um filme no Oscar.
O atrativo de Crash para os atores era sua característica de filme-sem-estrelas, realizado por uma companhia de profissionais com papéis harmoniosamente distribuídos, um elemento que ficou claro naquela brincadeira de Jon Stewart quando ele pediu que levantassem as mãos todos os que não tinham trabalhado em Crash.
O vasto elenco de Crash ouve a boa notícia no teatro Kodak: estratégia deu certo
Foto: L.A. Times
De uma forma ou de outra, a Lionsgate, co-produtora e distribuidora do filme de Paul Haggis, não dá ponto sem nó: Crash está voltando às telas americanas e britânicas esta semana, dez meses depois de sua estréia em 2005, capitalizando na boca do caixa a boa fortuna nos Oscars.