
51 estatuetas aguardam seus donos. Fico, por enquanto, por aqui. Mais uma vez, boa noite. E boa sorte.
Foto: LATimes.com
Despeço-me do blog Oscar 2006 com um grande beijo de obrigada a todos vocês (sim, até vocês dois!) que tornaram este espaço tão quente, vibrante e divertido. Fiquem com suas antenas ligadas – estarei de volta muito em breve aqui na Globo.com com um trabalho novo que vai matar a saudade de muita gente e, espero, trazer novos participantes para esta conversa.
Ficam aqui dois dos meus momentos favoritos da noite de 5 de março:
Ben Stiller instaura a performance surrealista no palco do Kodak...
E o grande Robert Altman tem, enfim, o seu Oscar.
Fotos: LATimes.com, Oscar.org
Petiscos variados:
- Você perdeu a sensacional abertura do Oscar? Dê uma olhada aqui
- a fim de rever o escorregão quase fatal de Jennifer Garner? Pois não...
- você notou que Tom Hanks entrou no palco do Kodak xingando tudo o que tinha direito? Juram que é porque a orquestra estava tocando o tema de Forrest Gump, que ele detesta e tinha pedido expressamente para não ser incluído no repertório.
- Está mesmo a fim de estraçalhar Crash? Google nele.
O escorregão de Jennifer: petisco do Oscar
Foto: Reuters.com
Também é bom lembrar que os Oscars são, além de tudo, um show de televisão. E um show de televisão que não anda lá muito bem de audiência, nos Estados Unidos . 2003 foi o ano-catástrofe, com o mais baixo índice da história do evento na TV.
Com tantos “estados vermelhos” e tantos filmes que a maioria da população certamente não viu nem tinha vontade de ver, a Academia e a rede ABC temiam um 2006 ainda pior, mas, no fim das contas, não foi uma desgraça total: apenas 8% abaixo de 2005, um ano que tinha mais estrelas e títulos populares.
O espectro do preconceito continua rondando a discussão em torno do resultado final dos Oscars.
Para compreender melhor essa e outras questões no contexto americano, é bom saber que os Estados Unidos são, hoje, um país dividido em dois. Usando como referência as cores oficiais dos partidos políticos ( que dão um resultado inverso no Brasil), existem os "estados vermelhos", conservadores, pró Bush, que votam no partido Republicano ; e os "estados azuis", liberais, anti Bush, eleitores do partido Democrata e de candidatos não-alinhados.
Todas aquelas referências a "estar fora de contato com a realidade" que foram ouvidas durante a festa do Oscar eram alusão a uma crítica constante feita pelos "estados vermelhos" de que os "azuis", como a Califórnia e sua figura de proa, Hollywood, não entendem o que se passa na "verdadeira" América. E que escolher filmes como Brokeback era prova disso.
É bom ver dentro dessa perspectiva a motivação da Academia ao lançar seus votos finais.
Ang Lee é abraçado pela mulher, Jane Lin, na platéia do teatro Kodak: mas o debate continua...
Foto: Reuters.com
De uma forma ou de outra, a Lionsgate, co-produtora e distribuidora do filme de Paul Haggis, não dá ponto sem nó: Crash está voltando às telas americanas e britânicas esta semana, dez meses depois de sua estréia em 2005, capitalizando na boca do caixa a boa fortuna nos Oscars.
Uma outra teoria interessante garante que uma bem urdida campanha boca-a-boca mobilizou os atores dentro da Academia para pedir os votos dos colegas para Crash. O Departamento de Atores é o mais numeroso dentro da Academia e pode, sim, fazer ou não fazer o sucesso de um filme no Oscar.
O atrativo de Crash para os atores era sua característica de filme-sem-estrelas, realizado por uma companhia de profissionais com papéis harmoniosamente distribuídos, um elemento que ficou claro naquela brincadeira de Jon Stewart quando ele pediu que levantassem as mãos todos os que não tinham trabalhado em Crash.
O vasto elenco de Crash ouve a boa notícia no teatro Kodak: estratégia deu certo
Foto: L.A. Times
Como Crash-No Limite ganhou? Esse é o tema do dia na indústria. A conexão Cientologia aparece com destaque para explicar a rápida ascensão de Paul Haggis de obscuro roteirista de TV a autor dos dois últimos vencedores do Oscar. Fato que, aliás, ele lembrou com certa veemência a um repórter estrangeiro que, procurando pela melhor palavra em inglês para formular sua questão nos bastidores do Oscar, ousou perguntar a Haggis como ele se sentia com sua “súbita” glória. “Súbita como? Eu sou o autor dos dois últimos ganhadores do Oscar!”
Boa munição para a Turma que Adora Odiar Crash.
Paul Haggis, triunfante:"súbita como?"
O dia seguinte: a sensação que prevalece é que lesaram O Segredo de Brokeback Mountain. Era para ter vencido, e venceu, a nível de Oscar, apenas parcialmente: os prêmios que realmente definem o vitorioso de um ano foram para Crash-No Limite.
Há muitas teorias e sentimentos voando pela indústria e pela mídia. Duas que respeito são do Carpetbagger do New York Times e do sempre sábio Kenneth Turan do Los Angeles Times. Turan coloca a coisa em termos muito simples: há filmes que vencem por perder (como Touro Indomável, por exemplo, para citar só um. Na área do filme estrangeiro, ó céus, Central do Brasil e Cidade de Deus).
Foi o que aconteceu com o filme de Ang Lee. Sua vitória mais profunda é o que já aconteceu- a travessia para corações e mentes do público do mundo inteiro, com toda a sua carga de inquietação, tristeza, desconforto, ameaça, encantamento. Isto é o que faz um grande filme: aquele que é tão poderoso que você não para de falar nele, contra ou a favor, muitas horas e muitos dias depois de tê-lo visto. Ou aquele que, como você leu aqui, dá medo de ser visto. Medo de ser visto: um filme sem armas, sem sangue, sem tortura, sem monstros, sem violência, sem sadismo. Um filme sobre amor, profunda e completamente sobre amor, sobre o que nos torna humanos e, portanto, divinos, em toda a nossa complexidade.
Mas mexer com o vespeiro da sexualidade humana é mais complicado, ameaçador e poderoso do que mexer com qualquer outro de nossos temas sensíveis.Como Turan coloca tão bem, na intimidade do voto anônimo o establishment da Academia pediu arrego. Já lhe pareceu bastante que Brokeback tenha chegado onde chegou. Mais seria...seria... seria... perigoso? Repugnante? Ameaçador? Queria ser uma mosca para olhar esse pessoal hoje, diante do espelho.
Não sou da turma que odeia Crash. É um bom filme, muito bem construído e urdido, com interpretações magníficas, uma bela trilha e minha canção favorita, além de ser a cara da minha cidade querida, Los Angeles. Mas não é o melhor filme do ano. Suas pretensões – nobres, sem dúvida – são maiores que sua capacidade de expressá-las fluentemente e, freqüentemente, isso se traduz numa linguagem estenográfica que flerta com o clichê.
Mas é um filme "seguro". Numa safra recheada de minas subterrâneas de temas “perigosos”, Crash expressa aquilo que é palatável para o veio principal da Academia.
É uma vitória. Mas não é A Vitória. Essa, tempo e história dirão.
Boa tarde, boa noite. E boa sorte.
Foto: Oscar.org